Flávio Aguiar: A Berlinale e as narrativas do nosso mundo


Está em curso a 62ª edição da Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim, que hoje é um dos mais importantes do mundo. Essa importância não deriva apenas do seu tamanho e abrangência, mas também de sua relação com a cidade de Berlim.

A Berlinale é neta da Segunda Guerra e filha da Guerra Fria. Numa cidade devastada pelo nazismo, pela guerra, com uma população adulta dramaticamente reduzida, e cortada pela divisão entre as potências (mas que era, na verdade, entre dois lados, o ocidental e o soviético), americanos e a recém criada República Federal da Alemanha (do lado do Ocidente) decidiram investir em cultura. Como a grande e famosa Universidade Humboldt ficara “do outro lado”, os americanos decidiram investir numa reclamada universidade do lado ocidental. Daí nasceu a Freie Universität Berlin.
Decidida a atrair jovens para Berlim Ocidental, a RFA liberou do serviço militar obrigatório os que para lá fossem. E para animar a anima da cidade, a prefeitura da cidade-estado (nessa altura uma ilha cercada de comunismo por todos os lados), com apoio da RFA e dos ocupantes do “seu” lado da então ex-capital alemã, decidiu também criar um festival de cinema de grande porte, que “trouxesse o mundo até Berlim”: a Berlinale. Isso em 1950.
A Guerra Fria se desenvolveu e se resolveu com a vitória, no comentário genial do criador de thrillers sobre ela, John Le Carré, dos bandidos dos dois lados. Ela passou, pelo menos é o que se diz, embora na verdade ela tenha apenas mudado de natureza e de táticas, como muito bem atesta a atual questão da Síria, “faca de muitos gumes”, como diria o meu amigo José Peralta.
Mas aquelas criações ficaram. A Freie Universität, hoje, é uma das mais importantes da Alemanha; tantos jovens foram atraídos para Berlim Ocidental, que em 1968 nela tornou-se um dos epicentros das revoltas estudantis daquele ano. Até hoje Berlim, agora reunificada, é considerada uma cidade “à esquerda”, no contexto político alemão.
E a Berlinale adquiriu luz própria, e ficou. E que luz! A obtenção dos cobiçados “Ursos” (de ouro, de prata, etc.) é tão ou mais disputada quanto um Oscar, ainda mais se sabendo que neste último os “insumos” de lobbies particularistas são bem maiores.
O Brasil sempre saiu bem no filme (a expressão é válida e inserida no contexto…) da Berlinale. Ganhou duas vezes o Urso de Ouro, com Central do Brasil e Tropa de Elite I, além de vários outros prêmios.
Dessa vez não é diferente. Na disputa pelo Urso de Ouro, o Brasil participa modestamente com parte numa co-produção com Portugal, França e Alemanha do filme “Tabu”, dirigido pelo cineasta português Miguel Gomes. Tem dois curtas na mostra: “L”, de Thais Fujinaga, sobre dramas da adolescência, e “Licuri Surf”, de Guile Martins, sobre índios surfistas no Nordeste brasileiro. Tem um longa documentário valioso, “Olhe pra mim de novo”, de Kiko Goiffman e Claudia Priscilla, sobre a vida de um homem transexual, Silvyo Luccio, que vive numa cidade do sertão nordestino e percorre a sua região discutindo casos semelhantes e outros que remetem à inesgotável engenharia criativa humana, os preconceitos em torno, as conquistas individuas e coletivas.
E tem o “Xingu”, de Cao Hamburger, sobre a saga épico-dramática dos irmãos Villas Boas na criação e manutenção do Parque Nacional do Xingu, criado em abril de 1961, por decreto do então presidente Jânio Quadros (um dos bons “acidentes” dele, como disse uma amiga), na época a maior reserva indígena do mundo, com um território superior ao da Bélgica, modelo para outros no Brasil, na América e no resto do planeta.
A fotografia é magnífica (a paisagem ajuda…), o desempenho dos atores também, com João Miguel dando um show de bola no papel de Cláudio Villas Boas, o homem que viveu 40 anos no parque sem sair de lá. É também o papel mais tenso e dramático, pois é quem vive de forma mais intensa o choque de civilizações e culturas ali presente.
É uma narrativa excepcional, que ilustra muito bem os passos e os impasses da sociedade brasileira. Claro está que o filme “surfa” na onda da atual polêmica sobre Belo Monte, e que, aqui na Alemanha, fala-se de “índio” e “floresta” como se fosse da própria casa, o que tem a ver com uma herança do romantismo alemão que vê a natureza como uma “força regeneradora” da humanidade.
O filme estréia no Brasil no próximo 06 de abril: não percam.
Dos demais filmes que assisti, ressalto o excepcional “Parada”, um filme sérvio sobre a Parada GLBT em Belgrado. O desempenho dos atores é excelente, e o filme encara o tema com um estilo de tragicomédia muito bem trabalhado pelo diretor Srdjan Dragojevic. O enredo envolve o drama de um ex-combatente sérvio nas guerras que trucidaram a região da ex Iugoslávia depois de sua dissolução, e que, pelos azares da vida é contratado para dar proteção à Parada Gay que vai se realizar em Belgrado, capital da Sérvia, onde grupos neo-nazis mantém uma agressiva militância contra os homossexuais. Ele, um machão convicto e muito bem caracterizado por Nikola Kojo, se vê na contingência de sair pelo território do ex-país, agora todo recortado entre croatas, bósnios, kossovares, macedônios e os próprios sérvios, a recrutar ex-inimigos de quem ficou amigo pelas vicissitudes da guerra, para realizar a “estranha” tarefa.
O diretor ressaltou que seu filme vem sendo recebido com entusiasmo na região, apesar das tentativas de grupos anti-gays no sentido de promover o seu boicote. E que ele vem sendo percebido, curiosamente, como um filme “iugoslavo”, num momento em que, diz ele, veteranos das guerras que trucidaram etnias, religiões e a região, ex-inimigos, hoje organizam coletas para ajuda mútua, independentemente do lado em que lutaram. Uma nova e esperançosa narrativa para a região.
Registro também uma decepção. Fui ver o filme “Indignados” do argelino/francês/Roma Tony Gatlif, animado por ser o único filme na exibição que trata diretamente da crise atual por que passa a Europa e o seu sistema financeiro e político. Com cenas reais das grandes manifestações recentes, sobretudo, na França, Grécia e Espanha (daí o nome), o filme pretendeu tecer uma narrativa a partir do ponto de vista de uma imigrante africana clandestina que a tudo vê, entre esperança e desespero (como os manifestantes). Saí decepcionado: o filme é apressado, confuso, se perde em metáforas e alegorias às vezes piegas ou incompreensíveis.
Tony Gatlif é um cineasta experiente, dono de um currículo respeitável e criativo.
O que houve?
Tenho uma desconfiança, que também ajuda a explicar o silêncio generalizado desse festival sempre tão engajado sobre a própria condição do continente: os cineastas, em grande parte, bem como muita e muita gente em vários setores da vida cultural, política, social, econômica, etc., ainda não sabem o que narrar. Um mundo está em ruínas – mesmo na ainda farta Alemanha. E não se sabe – não se tem a menor ideia – do que vai nascer dele. O que comprova que, sem uma imagem de futuro, não há narrativa que se crie, nem mesmo uma nostálgica sobre o passado. A ver.

Fonte: Portal Vermelho

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